domingo, 10 de março de 2013

Atento aos Sinais


Tive a oportunidade de assistir o novo show do Ney Matogrosso "Atento aos Sinais" no HSBC Brasil em São Paulo.
Como todos os shows deste verdadeiro camelão brasileiro, impecável: figurino, iluminação, voz, performance, repertório e principalmente banda.
No quesito banda o primeiro deslize: os músicos não foram apresentados. Apenas seus nomes foram escritos no telão atrás do palco ao final do show. Achei que não ficou legal. Gostaria que fossem apresentados, para poder conhecer melhor seus trabalhos.
Composta por dois guitarristas, um tecladista, um percussionista, um baterista, um trompetista e um trombonista, demonstraram muita sintonia com o protagonista, sem muito esforço, como todos os músicos que o acompanham. O contrabaixo ficou a cargo da pedaleira do tecladista.
O palco também não ajudou muito. Mesmo próximo do cantor, consegui ver somente seus joelhos para cima, demonstrado que a altura do palco é muito baixa. Em compensação a acústica da casa é muito boa.
Ao final do show, o segundo deslize: o Ney Matogrosso não quiz ou não pode receber seus fãs no seu camarim, coisa que habitualmente ele faz com naturalidade em seus shows. Deixando os simples mortais mais mortais ainda.
Fiquei atento a esses sinais.
Achei na internet no site do cantor, um fiel resumo do show, descrito pelo bloguista Mauro Ferreira, quando da estréia do show em Juiz de Fora-MG, que transcrevo abaixo:


Notas Musicais - Blog do Mauro Ferreira
Atento e forte aos 71, Ney faz do tempo sua casa em show quente e livre
Resenha de show
Título: Atento aos sinais
Show em cartaz em São Paulo (SP) de 8 a 10 de março de 2013

"O tempo é o meu lugar / O tempo é a minha casa / A casa é onde eu quero estar". Através destes versos do refrão de A ilusão da casa (2000), bela balada do compositor gaúcho Vítor Ramil interpretada por Ney Matogrosso no show Atento aos sinais, o cantor de Mato Grosso se situa em cena, no seu próprio tempo e espaço, livre, sem amarras estéticas.
Atento e forte aos 71 anos, Ney Matogrosso mal encerrou a turnê do show Beijo Bandido já está de volta à cena com espetáculo quente, pop, urgente, de roteiro sempre surpreendente, calcado em músicas de artistas do universo indie brasileiro.
Na estreia nacional de Atento aos sinais no Cine-Theatro Central de Juiz de Fora (MG), em 28 de fevereiro de 2013, Ney Matogrosso se reafirmou um (grande) intérprete inclassificável, já atemporal, politizado. 
Sob a direção musical do tecladista Sacha Amback, o cantor dá sua voz metálica a compositores cults e/ou emergentes em show feito na pressão. A pegada dos arranjos é calcada nos metais. Egresso da banda Ouro Negro, o trombonista Everson Moraes sopra com o trompetista Aquiles Moraes sons calorosos ao longo de todo o show. A metaleira já ecoa forte no refrão do primeiro impactante número, Rua da passagem (Trânsito) (1999), parceria de Lenine com Arnaldo Antunes que espoca flash do caos urbano, sinalizando a efervescência do espetáculo. Explosiva, Incêndio (1992) - música do repertório da banda carioca Urge, plataforma dos primórdios punks do compositor Pedro Luís - mantém elevada a temperatura, aquecida também pela luz vermelha que incide sobre o palco. Incandescentes, os metais simulam as sirenes de um carro de bombeiros. 
Na sequência, o rock Vida louca vida (Lobão e Bernardo Vilhena, 1987) reitera o tom urgente do roteiro.
Imagens antigas de Ney - que remetem à fase dos anos 70, de discos como Pecado (1977) e Feitiço (1978) - são projetadas como a sinalizar balanço existencial de vida que já foi louca. Termina, então, o bloco cheio de pressão do início do show. 
Após retirada estratégica de peça do figurino, Roendo as unhas (Paulinho da Viola, 1973) abre set menos incendiário, mas nem por isso menos incisivo. Fora do universo do samba e do choro, o tema de Paulinho se ajusta à pegada do show com suingue latino. Noite torta (1993) - primeira das três músicas de Itamar Assumpção (1949 - 2003), compositor predominante no roteiro - soa climática, com leve psicodelia. A letra fala em espelho. E, de certa forma, tal citação está refletida no cenário, que aloca um espelho ao centro do palco - base para a troca de figurinos. 
É sentado na frente do espelho que Ney canta o tema de Itamar. Oração, tema do emergente Dani Black que expõe na letra o título do show, suplica aos céus uma vida sem tempos mortos. "Não hei de ceder ao vazio desses dias iguais", promete Ney, lendo a letra no teleprompter, mas sem que a leitura (desta letra e dos versos de outras músicas) tire a força de sua interpretação. 
Paradoxalmente, vem em seguida o único tempo quase morto do show. É quando - ao som de ruídos e efeitos eletrônicos de tom futurista - Ney muda de figurino numa troca que, ao menos na estreia nacional de Atento aos sinais, resultou demorada. Retomado o roteiro, Two naira fifty kobo - tema de Caetano Veloso, lançado pelo compositor em seu álbumBicho (1977) - ganha batuque tribal e sentido político adicional em tempos de aniquilação de povos indígenas. 
Imagens de índios, aliás, são projetadas nas plataformas metaleiras que compõem o cenário metálico. Um dos pontos mais altos do show, Freguês da meia-noite - abolerada música lançada pelo rapper paulista Criolo em seu consagrador álbum Nó na orelha (2011) - esboça clima noturno que brinca com códigos do cancioneiro kitsch nacional. 
É a senha para um bloco de sensualidade mais erotizada. Isso não vai ficar assim - xote de Itamar Assumpção, gravado por Ney em 2012 em dueto com Zélia Duncan para disco em que a cantora aborda a obra do Nego Dito - é veículo para a exposição dessa sensualidade exibicionista do cantor, elevada a níveis explicitamente provocantes no verso Beija-me
Também ambientada no clima quente do bloco, Pronomes (Beto Boing e Paulo Passos, 2006) - pop rock tropical do repertório da banda paulista Zabomba - propõe mais liberdade e menos regras na gramática sexual. 
Beijos de imã - música em que Ney se apresenta como compositor, assinando o tema com Jerry Espíndola, Alzira Espíndola e Arruda - cola nesse tom erotizado e brinca em cima daquilo. Ney se deleita em cena, para gozo da plateia, Sucesso cult da banda carioca Tono, Não consigo (Rafael Rocha, 2010) também bate na tecla da sensualidade no registro quase lascivo de Ney. O arranjo da música tem toque kitsch na introdução e no fim do número.
Terceira música de Itamar Assumpção a entrar em cena, Fico louco (1983) ainda pode ficar mais louca no decorrer da temporada.
Já o balanço pop tropical do Samba do blackberry (Rafael Rocha e Alberto Continentino, 2010) - outra música do repertório do grupo carioca Tono - surte efeito de cara, injetando humor no mosaico contundente de Atento aos sinais.
Confirmando o caráter surpreendente do roteiro, montado sem hits e sem concessões, Tupifusão expõe em cena a verborragia consciente do rapper alagoano Vítor Pirralho. O tema é valorizado pela coreografia de Ney no número.
No fim, Todo mundo o tempo todo - ótima composição do inspirado Dan Nakagawa - fecha o show em grande estilo, traduzindo na letra a efervescência e a inquietude de Atento aos sinais, espetáculo exuberante que celebra o movimento incessante e renovador da vida. 
No bis, Ney é alvo da ovação da plateia ao reviver Amor (João Ricardo e João Apolinário, 1973), música menos batida do primeiro álbum do Secos & Molhados, grupo que deu visibilidade nacional ao cantor há 40 anos. 
Na sequência, Astronauta lírico - outra joia rara da lavra delicada do compositor Vítor Ramil - comove com sua beleza. 
Bolas de sabão caem sobre o palco e o público. É o sinal emocionante de que a viagem chegara ao fim. Ney - o astronauta libertário e libertado - está de volta à Terra, atento, forte, renovado, fazendo do tempo sua casa e lugar. "


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